Sábado, dia 10 de dezembro de 1983, poucas horas antes da decisão que mudaria para sempre a história do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

A cidade se prepara para uma noite inesquecível.

Os gremistas passaram todo o dia de sábado com aquele frio na barriga... até tentaram levar uma vida normal. O natal estava chegando e o centro da cidade borbulhava de pedestres atrás das melhores ofertas de presentes. Para as crianças, a loja Hipo Imcosul estava lançando o triciclo Tico-Tico Bandeirante Universal por apenas 10.490 cruzeiros. Os adultos poderiam adquirir o novíssimo computador pessoal TK-85 com surpreendentes 16 ou 48 K-bytes de memória RAM. Nas lojas J.H. Santos, o Televisor Philco 12 polegadas, giratório, totalmente transistorizado e funcionando a luz e bateria custava apenas 109 mil cruzeiros.


 

Com a partida marcada para a meia-noite, não foram raros os churrascos espalhados pela cidade, afinal o dia seguinte era um domingo. O horário do jogo chegou a atrapalhar a presença de público na apresentação do Presépio Vivo encenado no jardim da Paróquia Menino Deus, em Porto Alegre.


 

Para quem não conseguia esconder a tensão momentos antes do jogo, a solução era pegar um cineminha para tentar relaxar. O cinema Baltimore, na Avenida Osvaldo Aranha, tinha em cartaz o filme A Filha de Ryan. No cine Marrocos, na Getúlio Vargas, e no Presidente, na Benjamin Constant, o gremista poderia assistir ao filme Tootsie, com Dustin Hoffmann. Boas opções.


 

Para quem ficou em casa, o programa era acompanhar pela TV o capítulo 162 da novela Guerra dos Sexos antes do Jornal Nacional e, logo depois, o capítulo 42 de Champagne.


 

Minutos antes do início da partida, a TV Gaúcha entrou no ar com as imagens ao vivo do estádio Nacional de Tóquio, com narração de Celestino Valenzuela.



 

Ninguém dormia em Porto Alegre.

Bares da capital estavam lotados com as pessoas se acotovelando na frente do aparelho de TV.


 

No Japão, o time gremista já em campo esperava o início da partida. Os jogadores tentando manter o corpo aquecido para não sentirem os efeitos do frio de quase zero grau. Horas antes da partida, a capital japonesa foi atingida por uma forte nevasca que acabou queimando o gramado do estádio Nacional.


 

A torcida, formada quase que só por orientais, praticamente lotava os 60 mil lugares e se divertia com o som ensurdecedor de milhares de cornetas distribuídas na entrada do estádio. A torcida gremista marcou presença principalmente com as faixas das torcidas organizadas Máquina Tricolor, Super Raça e Garra Jovem.


 

O jogo começou tenso, com muitos erros nos passes. O gramado seco dificultava o toque de bola.


 

Aos 37 minutos, Renato recebeu a bola na direita, driblou a marcação e chutou cruzado, entre o goleiro e a trave esquerda.



 

Grêmio 1 a 0.

No Salão Nobre do Conselho Deliberativo do Grêmio, centenas de conselheiros e dirigentes vibravam na frente do telão disponibilizado pelo Clube.


 

Na pista atlética feita de "tartan" no Estádio Nacional de Tóquio, o técnico Valdir Espinosa, que antes da partida anunciou que deixaria o Grêmio independente do resultado, se abraçou com Renato comemorando a vitória parcial.


 

Na etapa final, o Hamburgo ficou com o domínio das ações mas praticamente não levou perigo ao gol de Mazaropi que brilhou em algumas intervenções.


 

Já nos minutos finais, o time alemão tentou um ataque pela esquerda. Voltando para ajudar na marcação, Renato conseguiu roubar a bola no campo de defesa e chutou para lateral. No momento em que esticava a perna finalizar o movimento do chute, o craque gremista sentiu fortes cãimbras e deixou o gramado para ser atendido na beira do campo. Neste momento, o único em que Renato estava de fora, o Hamburgo chegou ao empate. Bola levantada na área gremista e Schröeder empurrou para as redes.


 

Eram 40 minutos do segundo tempo.


 

O desânimo desabou sobre os torcedores das organizadas do Grêmio que assistiam à partida na sala do Departamento Eurico Lara, na frente de um pequeno aparelho de TV. Muitos já estavam no pátio de estacionamento esperando o apito final para iniciar a festa. A cerveja já tinha terminado.


 

Os poucos fogos que estouravam na madrugada daquele domingo em Porto Alegre, naquele momento, não eram de gremistas.


 

Qualquer obediência aos critérios táticos já tinha sido deixada de lado por parte dos jogadores gremistas.



 

A vitória chegaria na raça, na vontade... na sorte.

A TV japonesa transmitiu os 90 minutos ao vivo para a capital japonesa, mas teve que interromper as transmissões locais pois a grade de programação não estava programando os 30 minutos de tempo extra. Até hoje existem japoneses que não sabem o resultado final da partida.


 

No Brasil, a TV Gaúcha continuava com as imagens dos atletas gremistas extenuados, atirados ao chão esperando a prorrogação.


 

Logo aos 3 minutos da primeira etapa, novamente brilhou a estrela de Renato. Ele recebeu na área cruzamento vindo da esquerda, dominou com o pé direito, driblou a marcação e chutou com a outra perna, no canto do goleiro Stein.


 

Grêmio 2 a 1!


 

Não dava mais para perder.


 

Já nos minutos finais, num contra-ataque, o atacante Caio (aquele mesmo que marcou o primeiro gol na final da Libertadores contra o Peñarol) perdeu a chance de colocar de vez seu nome na história do Grêmio como "o artilheiro das decisões". Ele recebeu a bola logo após a linha divisória do gramado, entrou completamente livre com ela dominada e, na entrada da área, mandou uma bomba por sobre o travessão. Por sorte, esse gol não fez falta.



 

Grêmio Campeão Mundial!

Festa no Japão, festa em Porto Alegre e em todo o Estado do Rio Grande do Sul.


 

Os relógios marcavam quase três horas da manhã quando a torcida gremista tomou conta das ruas da capital gaúcha. O ponto de encontro foi a avenida Érico Veríssimo, esquina com avenida Ipiranga, ao lado do prédio do jornal Zero Hora.


 

Antes de partir para o local da festa, os torcedores das organizadas do Grêmio que viram a partida na sala do Departamento invadiram o Salão Nobre do Conselho para confraternizar com os dirigentes e conselheiros.


 

No vestiário do Estádio Nacional de Tóquio, Renato comemorava o título, os dois gols e a escolha de melhor em campo (o jogador recebeu um carro da Toyota). Os jogadores eram abraçados por torcedores que conseguiram entrar. Foi uma festa inesquecível.


 

Na segunda-feira, dia 12, às 7h (19h de domingo em Porto Alegre), a delegação gremista embarcou para Los Angeles onde, na terça-feira à noite, participou da Los Angeles Cup vencendo o América do México (campeão da Taça das Nações) nas penalidades (4 a 3) após empate de 2 a 2, pela cota de 50 mil dólares. Uma competição oficial organizada pela California Soccer Association. O Presidente Fábio Koff já havia assegurado 300 mil dólares para o Clube pela participação e vitória na Copa Toyota.


 

A chegada em Porto Alegre estava marcada para o início da tarde de quinta-feira. A delegação chegou no vôo 100 da Varig proveniente do Rio de Janeiro.



 

Nesse momento, o Grêmio inaugurou as comemorações de títulos em caminhão de bombeiro.

Foi assim que os jogadores foram transportados até o Estádio Olímpico, local da festa programada pela direção do Clube. As principais ruas de Porto Alegre foram palco das comemorações da maior conquista até hoje de um clube gaúcho.


 

Em todos os cantos da cidade, os milhares de fogos que eram estourados naquele início de tarde de quinta-feira, com certeza, eram de gremistas.


 

Quem viveu, não esquece. Quem não participou, escuta as histórias dos mais velhos e aguarda a próxima vez.



 

Grêmio Campeão do Mundo, nada pode ser maior.