Libertadores: o caminho para o Japão
Capítulo 2

Em 1981, o Grêmio conquistou seu primeiro título do Campeonato Brasileiro, com um gol histórico de Baltazar contra o São Paulo, em pleno Morumbi. A vitória garantiu, também pela primeira vez, a presença do Clube na disputa pela Taça Libertadores da América, maior competição entre clubes do continente americano.
Zico segura a taça de campeão do Flamengo, depois da vitória sobre os ingleses do Liverpool
No mesmo ano, o Flamengo foi o primeiro time brasileiro a sagrar-se campeão do continente americano e ir ao Japão disputar o Mundial com o Liverpool, da Inglaterra. No dia 13 de dezembro, o time carioca venceu a disputa e levou a taça para o Rio de Janeiro.

A repercussão mundial da conquista flamenguista levou outros times brasileiros a pensarem com mais carinho em investir em bons desempenhos na Libertadores. O Grêmio, no entanto, não soube aproveitar sua primeira participação no torneio e acabou sendo eliminado ainda na primeira fase, em um grupo com Defensor Sporting (URU), Peñarol (URU) e São Paulo. Na época, apenas o primeiro do grupo seguia na competição.

Segunda chance
Nunes discute com o goleiro gremista Leão, durante a finalíssima de 1982

O Grêmio disputou o Campeonato Brasileiro de 1982 com voracidade, na esperança de conquistar o bicampeonato. No entanto, o time perdeu a finalíssima contra o Flamengo, de Nunes, e teve que se contentar com a classificação para a Copa Libertadores do ano seguinte, em sua segunda participação na competição continental.

Já com alguma experiência internacional e com o comando do caudilho Hugo de León dentro do campo, o Grêmio vislumbrou na Libertadores a possibilidade de alcançar um título inédito para o Rio Grande do Sul. A equipe treinada por Valdir Espinosa soube se adequar perfeitamente às características de garra, força e entrega que normalmente têm aqueles times latino-americanos habituados a triunfarem neste tipo de torneio.

A fórmula de disputa da Libertadores naquela época pode ser considerada muito mais difícil do que a de hoje em dia. Na primeira fase, em um grupo com quatro equipes, apenas o primeiro colocado passava para a fase semifinal. Esta fase, por sua vez, era disputada entre três equipes, com a campeã do grupo se classificando para a final. Por fim, a decisão era disputada numa melhor de três, ou seja, se cada equipe ganhasse um jogo, o campeão sairia em uma terceira partida jogada em campo neutro, normalmente em um país fronteiriço.

Com um planejamento organizado desde o final de 1982, o Grêmio montou uma equipe que mesclava juventude e experiência, técnica e garra. Sem espaço no Flamengo de Zico, o meia Tita foi contratado por empréstimo e se tornou uma das principais figuras do time de Espinosa. Na defesa, De Leon era o xerife e, no ataque, a experiência de Tarciso com a força e os dribles desconcertantes do jovem Renato. A fórmula ideal que levou o Tricolor à conquista do título.

Primeira fase
Mazarópi foi um  importante reforço para a fase semifinal

Na primeira fase, o Grêmio enfrentou Bolívar e Blooming, respectivamente campeão e vice-campeão da Bolívia, além do Flamengo, campeão brasileiro. Graças às duas vitórias em território boliviano, o Tricolor comemorou a classificação para a fase semifinal com uma rodada de antecipação.

Ainda invicto na competição, o Tricolor contou com um reforço importante para a fase semifinal: o goleiro Geraldo Pereira de Matos Filho, ou Mazarópi, foi contratado junto ao Vasco da Gama onde havia conquistado o título carioca de 1982. Sua experiência e a forma enérgica como participava das partidas serviu como uma luva na equipe gremista. Remi, titular até então,mas que havia mostrado insegurança em alguns jogos, teve que se contentar com a reserva.

Semifinal
O argentino Estudiantes de La Plata e o colombiano América de Cali foram os adversários do Grêmio na fase semifinal. Depois de vencer o Estudiantes no Olímpico por 2 a 1 na abertura da fase, o Grêmio conheceu sua primeira e única derrota na competição: 0 a 1 contra o América, em Cali.

Na partida de volta, o Grêmio deu o troco, vencendo por 2 a 1. Brilhou a estrela de Mazarópi, que defendeu uma cobrança de pênalti na segunda etapa garantindo a vitória.

O empate com os argentinos do Estudiantes entrou para a história como a Batalha de La Plata
Na última partida, a histórica “Batalha de La Plata”, Grêmio e Estudiantes ficaram no 3 a 3. O Tricolor vencia por 3 a 1 mas os donos da casa chegaram ao empate mesmo com quatro jogadores expulsos. Uma verdadeira guerra, onde jogadores, dirigentes e torcedores gremistas sofreram com a hostilidade dos agressivos argentinos presentes no acanhado estádio de La Plata.

Com este resultado, o Estudiantes enfrentou o eliminado América, em Cali, precisando de uma vitória para garantir a vaga na final. Na iminência de ficar de fora da decisão, o então presidente gremista, Fábio Koff, utilizou todo seu prestígio junto aos dirigentes do clube colombiano para garantir a mobilização necessária dos jogadores dentro de campo.

Deu certo, um empate sem gols garantiu o Grêmio na grande decisão da Libertadores contra o tradicionalíssimo Peñarol do Uruguai, que defendia o título de campeão do torneio e campeão mundial interclubes.

Final
Sempre seguro de si e defensor da teoria de que fazer o primeiro jogo em casa é melhor, a diretoria do Peñarol dispensou o sorteio que definiria o mando de campo para a final preferindo que o segundo jogo fosse realizado em Porto Alegre. O desejo dos uruguaios veio ao encontro do que queria a diretoria gremista.

No dia 22 de julho, em Montevidéu, as duas equipes entraram no gramado de um místico Estádio Centenário lotado para dar início à decisão da 24º edição da Libertadores. O Peñarol, querendo fazer escore, e o Grêmio tentando segurar o ímpeto charrua.

Tita escora escanteio de Tarciso e faz o primeiro gol do Grêmio
Logo no início, o meia Tita abriu o marcador para o Tricolor depois de escanteio cobrado por Tarciso da esquerda. Grêmio 1 a 0. Na base da raça, o Peñarol chegou ao empate ainda na primeira etapa com Fernando Morena.

A pressão dos uruguaios em busca da vitória durou até o final mas o Grêmio foi guerreiro e conseguiu assegurar um empate maiúsculo em território inimigo, bastante comemorado por todos os gremistas. Bastava agora uma vitória simples no Olímpico para que o título não saísse de Porto Alegre. O sonho de Tóquio estava cada vez mais próximo.

Porto Alegre parou no dia 28 de julho de 1983 e voltou as atenções para o Estádio Olímpico onde, à noite, Grêmio e Peñarol faziam o segundo jogo da final da Copa Libertadores. Quem vencesse garantiria o título. Um novo empate levaria a decisão para um terceiro jogo em campo neutro na cidade de Buenos Aires.

Desde o início, o Tricolor transformou o gigantesco apoio de sua torcida em superioridade dentro de campo. O primeiro gol não demorou a sair: Osvaldo entrou pela esquerda e chutou cruzado. A bola passaria na frente do gol mas Caio apareceu e empurrou para as redes.

Atrás no marcador, os uruguaios não mediram esforços para chegar ao empate e, apesar de grande atuação do setor defensivo gremista, marcaram no início da etapa final. Fernando Morena, de cabeça depois de cobrança de falta da direita, fez 1 a 1.

Também de cabeça, o atacante César sela o resultado: Grêmio campeão da América
O gol abalou a equipe gremista que demorou um pouco até colocar a cabeça no lugar e voltar a fazer prevalecer sua superioridade. Aos 32 minutos, Renato recebeu ao lado da área, pela direita, e cruzou. O atacante César, que havia entrado no lugar de Caio, mergulhou de cabeça e marcou o gol da vitória gremista. Loucura no Estádio Olímpico!

O único vermelho de destaque em Porto Alegre, nos dias seguintes, era o sol nascente representado na bandeira do Japão. O Grêmio estava garantido em Tóquio para enfrentar o Hamburgo na decisão do Mundial Interclubes de 1983.