Valdir Espinosa, aposta vitoriosa
Capítulo 8
Valdir Ataualpa Ramirez Espinosa. Hoje em dia, o nome de um técnico consagrado dentro do futebol brasileiro. Em 1983, com apenas 36 anos de idade, um profissional em início de carreira em busca de oportunidade para mostrar sua competência.

A oportunidade foi dada pelo Grêmio de Fábio Koff que, com sua visão futurista, acreditou nas potencialidades daquele jovem treinador que, anos antes, havia defendido o Grêmio como jogador. Com aval da direção, Espinosa assumiu no início do ano, durante a pré-temporada em Gramado. Começava ali um dos trabalhos de maior sucesso de um treinador no comando do Clube.

Por telefone, direto de Fortaleza, Espinosa atendeu a reportagem de Grêmio.Net e falou sobre aquele inesquecível momento em Tóquio.

Grêmio.Net: Quando você assumiu o Grêmio, tinha alguma idéia de que poderia chegar até onde chegou conquistando o Mundial Interclubes?

Espinosa: Eu tenho muito medo de avião e lembro que no dia da minha apresentação, em Gramado, falei para os jogadores no vestiário: “Façam uma sacanagem comigo. Me levem a Tóquio no fim do ano”. Não sei se eles tinham essa real idéia mas a verdade é que chegamos lá.

Grêmio.Net: Mas quando você foi contratado, a direção gremista já tinha esse objetivo de chegar ao Japão no final do ano?

Espinosa: Sim. Quando fui contratado, junto com outros companheiros, o Fábio Koff foi bem claro e disse: “Estes são os contratados e nós temos um título mundial para disputar no final do ano”.

Grêmio.Net: Qual a importância desta conquista para sua carreira que estava começando?

Espinosa: Se até hoje são poucos os clubes que chegaram a esta conquista no Brasil, também são poucos os treinadores. Valoriza muito o currículo de qualquer profissional. Ele fica muito mais forte. E a importância aumenta quando você conquista um título desta grandeza defendendo o time que você torce.

Grêmio.Net: Como foi a preparação com relação ao Hamburgo? Como foi feito para tomar informações sobre o adversário?

Espinosa: Naquela época não tínhamos a facilidade que temos hoje em dia. Conseguimos apenas uma fita com a gravação de um jogo do Hamburgo trazida da Alemanha por um comandante da Varig que era gremista. Eu e o Ithon Fritzen fomos para Hamburgo ver uma partida contra o Werder Bremen. O acompanhamento da imprensa gaúcha também foi importante. Houve uma cumplicidade muito grande por parte de todo mundo. Não era só o Grêmio que estava em jogo, era o futebol brasileiro.

Grêmio.Net: Qual a principal lembrança que você tem daquela conquista?

Espinosa: São duas lembranças: antes do início da prorrogação, o De Leon, que era o capitão, chegou pra mim e disse: “Fica tranqüilo. Lá na área ninguém mais vai cabecear”.Ouvindo isso, o Renato chegou pra mim e falou: “Se lá atrás a defesa garante, pode deixar que lá na frente eu vou arrebentar”.

Grêmio.Net: Qual foi o momento mais difícil?

Espinosa: O gol do Hamburgo. O jogo já estava no final e isso levaria a decisão para uma prorrogação. Mas depois do que escutei do De Leon e do Renato não perdi a confiança.

Grêmio.Net: Quando você teve a certeza de que o título seria nosso?

Espinosa: A gente sempre acreditou. O grupo era extraordinário. Com uma grande qualidade técnica, força e determinação. Talvez uma das maiores equipes que o Grêmio já teve em sua história. Nós não fomos para Tóquio para apenas disputar um jogo, fomos para buscar o título.

Grêmio.Net: Como era sua relação com os atletas?

Espinosa: Havia uma amizade muito grande e muito respeito. Evidente que a experiência não é a mesma que tenho hoje mas sempre houve muito respeito. Tanto por parte dos jogadores quanto por parte do Koff, dos médicos, do Verardi. Havia uma cumplicidade muito grande e uma entrega por parte de todos.

Grêmio.Net: Você tem alguma história curiosa vivida neste período no Japão que possa ser relembrada?

Espinosa: Logo após o final do jogo, eu, o De Leon e o Renato, que havia sido eleito o melhor em campo, permanecemos no estádio para a entrevista coletiva enquanto o resto do grupo ia para o hotel. Quando chegamos de volta ao hotel, chamei todos os jogadores para o meu quarto e pedi três champanhas para comemorar. Quando o japonês trouxe a conta eu me apavorei. Não tinha como pagar. Chamei o Koff e disse: “Presidente, assina essa conta aqui pra mim”. Ele disse: “Tá bom. Deixa comigo”. (Risos) Isso que foram só três champanhas. Imagina se tivesse pedido mais?