Viagem até o outro lado do Mundo
Capítulo 11

Dia 05 de dezembro de 1983, segunda-feira, 17h30, um vôo da Varig levando 170 passageiros, entre eles os atletas gremistas, decolava do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, tendo como destino final o aeroporto de Narita, no Japão. Com eles, embarcava a esperança de milhares de torcedores ansiosos com a decisão do Mundial Interclubes.

A despedida emocionada de centenas de gremistas no aeroporto da capital gaúcha fez com que o início de viagem fosse marcado por um clima de alegria e confiança. Ninguém demonstrava preocupação com o desgastante vôo.

Porto Alegre - Rio de Janeiro - Lima

A primeira parada foi no Rio de Janeiro, onde a delegação trocou para um avião maior. No mesmo vôo, embarcaram os jogadores do time Estrelas da América, uma equipe com atletas e ex-atletas da América do Sul que faria jogos amistosos nos Estados Unidos.

As presenças de Rodolfo Rodriguez, Romerito, Rodrigues Neto, Carlos Alberto Torres e Figueroa, entre outros, causou rebuliço no avião. O zagueiro chileno, ex-Internacional, foi alvo das brincadeiras de gremistas e acabou tendo que vestir uma camisa do Grêmio, para alegria dos fotógrafos.
O carteado foi o passatempo predileto dos gremistas e passageiros em geral
O carteado foi a principal distração encontrada pelos passageiros para ocupar o longo tempo ocioso dentro da aeronave. Jogos animados entre atletas, torcedores e diretoria ocupavam as atenções dos demais. Poucos permaneciam em seus lugares, e a caminhada pelos corredores foi a alternativa para a bem-vinda esticada de perna. Depois da janta e com a chegada da madrugada, as luzes foram apagadas e a maioria, derrotada pelo cansaço, caiu no sono.

A chegada em Lima ocorreu por volta das 3h30 de terça-feira, com escala de uma hora para reabastecimento. Alguns passageiros se aventuraram a descer do avião para fazer compras no aeroporto, mas prontamente retornaram de mãos vazias reclamando dos altos preços cobrados pelos comerciantes locais.

Lima - Los Angeles - Narita

Por volta das 10h de terça-feira, dia 6, já com o sol brilhando do lado de fora da janela, foi servido o café da manhã. Muitos já estavam de volta ao carteado, acompanhado do chimarrão. O avião se aproximava de Los Angeles, nos Estados Unidos, local da última escala antes do trecho mais longo da viagem.

Com o aeroporto de Los Angeles em reforma, os passageiros tiveram que aguardar em um local improvisado, dentro de um galpão inflável, até o anúncio da saída da nova aeronave. Dali para o Japão seriam mais 11 horas de vôo.

A constante mudança no fuso horário acabou confundindo todo mundo. A discussão a respeito do horário durou um bom tempo. Uns tinham mudado o relógio para o horário do Peru, outros para os Estados Unidos, mas a maioria optou por não mexer. Na verdade, a discussão foi só mais um pretexto para passar o tempo.

O técnico Valdir Espinosa, sabidamente temeroso quando entra num avião, já deixara de ser o alvo das brincadeiras. Acostumado com os barulhos das turbinas e com as turbulências, passou algumas horas na cabine de comando, onde recebeu uma aula de pilotagem.

De León, Mazarópi e Tarciso, contavam com a presença de suas esposas no vôo. Uma concessão da diretoria gremista após apelo de Margarita, esposa do capitão uruguaio.

chegada em Narita

Enfim, depois de intermináveis 36 horas de viagem, o avião levando a delegação gremista (foto) aterrissou no aeroporto de Narita, no Japão. Eram 2h da manhã de quarta-feira no Brasil, 14h no Japão.

Treinamentos em Tóquio

Feito todo o trâmite de entrada no país, a delegação gremista sofreu o primeiro choque cultural tendo em vista o avanço tecnológico e as modernidades japonesas. Isso sem falar no idioma. Nenhum letreiro que não tivesse a tradução para o inglês poderia ser identificado.

Sensível a estes problemas, a Toyota, patrocinadora do Mundial, colocou cinco tradutores à disposição da delegação 24 horas por dia. Com a ajuda deles, todos os problemas de alfândega foram solucionados até a delegação embarcar em um ônibus especial com destino ao local da concentração, no centro de Tóquio.

Um grande contingente de brasileiros aguardava no saguão do Hotel Prince pela chegada da delegação gremista. O trajeto de Narita até o hotel durou aproximadamente duas horas, um sacrifício pequeno para quem já havia passado 36 horas em deslocamento. A recepção foi carinhosa, ao estilo japonês, e animada, ao estilo brasileiro.

A grande maioria dos gremistas preferiu subir para os quartos para tomar banho e descansar em uma cama de verdade. O delicioso jantar foi servido às 20h15, horário local. Uma hora depois, a programação distribuída pelo clube anunciava que os atletas deveriam se recolher aos aposentos. O principal objetivo agora era adaptar o organismo dos jogadores ao fuso horário local.

Depois de aproximadamente 11 horas de descanso, a delegação gremista despertou às 9h da manhã de quinta-feira para o desjejum no restaurante do hotel. Uma alimentação leve, para não interferir no treinamento marcado para o meio-dia em um centro de treinamento próximo ao hotel.

O horário foi decidido pela comissão técnica por coincidir com o horário da partida de domingo. O estádio Nacional, local do jogo, só seria disponibilizado no sábado para um rápido reconhecimento do gramado.

Valdir Espinosa e Ithon Fritzen comandaram um trabalho leve tanto na parte técnica quanto física. Alguns jogadores demonstraram bastante desgaste depois da viagem de 36 horas. A baixa temperatura, em torno de 6°C, também não ajudava. O treinador gremista afirmou que manteria os trabalhos leves em todos os treinos até a partida pois o trabalho mais forte já havia sido realizado em Gramado.

Tarciso sentiu dores musculares durante o vôo e foi observado pelo Departamento Médico. China ainda se recuperava de uma entorse no tornozelo e Mário Sérgio apresentava um quadro gripal. Porém, nenhum chegou a ser dúvida para o jogo. O ponto positivo do dia foi que ninguém mostrou problema de adaptação ao fuso horário.

O Estádio Nacional

Inaugurado em 1958 para a disputa dos jogos asiáticos, o Estádio Nacional de Tóquio, até a Copa do Mundo de 2002, era o maior orgulho do país em matéria de futebol. Em 1964, foi palco dos Jogos Olímpicos e, três anos depois, sede da Universíade. Atualmente, recebe partidas do FC Tokyo e do Verdy Tokyo.

Com capacidade oficial para 60.067 espectadores, o Estádio Nacional é um ponto de referência para os esportistas japoneses por sua localização central e privilegiada. Seu complexo esportivo, que conta com dois campos de baseball, fica ao lado do prédio do Arquivo Nacional, dentro do Meiji Jingu Gaien Park, uma área verde freqüentada por jovens em busca de lazer e exercícios físicos.

Sábado, meio-dia, faltando 24 horas para o início da decisão, a delegação gremista desembarcou no local da partida para o reconhecimento do gramado. O mesmo seria feito pela equipe do Hamburgo horas depois.

O gramado queimado pela neve do rigoroso inverno japonês deixou uma má impressão, mas que foi prontamente desfeita quando os atletas começaram a fazer a bola rolar. Apesar de duro, amarelado e desgastado pelo frio, o piso mantinha a qualidade para a prática de um bom futebol. Os jogadores acabaram optando pelo uso de travas de borracha nas chuteiras. Agora só restava ao Grêmio esperar as últimas horas antes da maior decisão de sua história.